[Edição 2] “Mira Técnica”: A ‘nova’ RTP1

Por Paulo Andrade

Estreou na última segunda a nova RTP1 trazendo não uma, não duas, mas pelo menos três mãos cheias de novidades.

Infelizmente, neste caso estas novidades serão novos problemas que irão se juntar aos já existentes e que complicam o dia-a-dia da estação.

Um serviço público de televisão com dois canais só faz sentido se um deles for dirigido ao grande público, embora recorrendo a uma programação alternativa à oferecida pelos canais privados.

Nova Imagem

Na minha opinião, a mudança de imagem não era uma prioridade, mas aceito que o tenham feito. O resultado final é positivo, introduzindo cor, vida e frescura na televisão pública.

A acompanhar a nova imagem surge uma nova assinatura – ‘Portugal sempre ligado’ – que traduz na perfeição a essência da RTP1.

No entanto, o meu aplauso vai para a adopção do formato 16:9 como padrão em toda a emissão. Uma mudança que realmente se impunha e que deve servir de exemplo às estações privadas, que recusam sair da Idade da Pedra.

Grelha de Programação

Mudanças: RTP1 altera horário nobre

É a pedra de toque da nova RTP1 e infelizmente não passou no teste.

Uma nova estrutura de programação no horário nobre?

Não. A nova programação da RTP1 não adopta uma nova estrutura de programação em horário nobre, apesar do que a Direcção de Programas quer fazer crer. Houve apenas a substituição do concurso de cultura geral por uma série de ficção diária. Uma mudança bastante negativa, pois é contrária ao objectivo da RTP1 de funcionar como alternativa à SIC e TVI, uma vez que não passa de uma telenovela encapuzada.

O concurso de cultura geral cumpria na perfeição esta missão, mantendo a sua validade e viabilidade. No entanto, nos últimos anos foram escolhidos formatos fracos e com temporadas muito longas.

Com esta medida a diferenciação da oferta da RTP1 surge uma hora mais tarde na segunda metade do horário nobre com a linha de documentários.

Em teoria poderiam ser uma boa aposta, mas na prática são uma inutilidade. E porquê? Porque nunca irão funcionar sendo um desperdício de conteúdos e recursos. Uma descrição extensível a toda a oferta do horário nobre da estação!

Um modelo de programação só faz sentido se for adequado ao mercado em que é aplicado. Mercado esse composto pelo público, concorrência e empresa responsável pela medição de audiências. É preciso uma adaptação contínua às mudanças do mercado, tais como, mudanças nos hábitos de consumo e tipo de oferta da concorrência.

Por isso não vale a pena defender um modelo como o da BBC, RDF ou France 2, se a concorrência nesses países não tem um modelo de programação semelhante ao existente em Portugal.

Sem esquecer que muitas vezes entram em contradição. Como por exemplo, dizer-se que as televisões de serviço público na Europa não emitem telenovelas e muitos menos em horário nobre. O que é uma grande mentira já que habitualmente o programa mais visto da BBC é uma telenovela (“Eastenders”) emitida precisamente em horário nobre, desde 1985.

Sendo assim qual o modelo mais adequado perante as actuais condições de mercado?

É preciso não esquecer a forte contenção orçamental que afecta todos os operadores e que inviabilizam certas opções.

Na minha opinião, a primeira hora do horário nobre (21h00-22h00) deve ser ocupado essencialmente por ficção não diária e desenvolvida por temporadas. Desde séries de humor, drama, época, etc.

Estou completamente contra a opção actual de colocar todos os dias um programa de informação especializada. No fundo o que a RTP1 faz é tentar compensar a redução da duração do “Telejornal” com estes programas acompanhando a duração dos noticiários da SIC e TVI.

O que voltou a acontecer com a estreia do “360º” a compensar mais uma redução do “Telejornal”. Uma medida completamente absurda no panorama audiovisual português.

Existem duas opções para a informação especializada na RTP1:

– De segunda a sexta às 22 horas dentro de um programa bandeira que poderia ter como título “360º”

– Domingo das 21h00 às 00h00, igualmente inserido num programa bandeira com o mesmo título.

Para além da necessidade de funcionar como alternativa aos canais privados é preciso responder à existência de canais de informação no universo cabo disponível em 75% dos lares nacionais, um deles da própria RTP.

Na primeira opção, este programa de informação substitui o concurso de cultura geral, no entanto, este voltaria durante o verão, uma vez que este programa deveria receber férias nessa altura.

Na segunda opção, o concurso de cultura geral mantinha-se às 22 horas ou então era substituído por um “Programa da Noite” (22h00-00h00). Neste último caso, deixaria de haver o programa de latenight, por razões financeiras. O “Programa da Noite” designa diferentes programas emitidos naquele bloco, uns durando toda a temporada e outros durando 3 a 4 meses. No primeiro caso seriam programas temáticos (formato dinâmico), enquanto no segundo caso seriam programas de formato fixo (Por exemplo, “Ídolos”, “Top Chef”, etc.) e por isso durando menos tempo no ar.

Em relação aos documentários estes poderiam encontrar o seu lugar no acesso ao horário nobre (18h00-20h00) do fim-de-semana, incluindo os documentários da BBC.

Já agora a aquisição dos documentários da BBC foi mais um episódio ridículo, absurdo e bastante revelador do nosso mercado, culminando com a colocação deste produto no mesmo horário em que foram emitidos durante anos a fio pela SIC.

Para fechar a noite dos dias úteis (23h00-01h00) um programa de variedades no lugar do “5 Para a Meia-Noite” caso se optasse por um concurso ou programa de informação às 22 horas.

O “Herman 2013” é mais um programa ultrapassado e sem interesse que nunca deveria ter estreado.

No sábado à noite a aposta no entretenimento seria para continuar mas com programas distintos dos privados. Um regresso do “Último a Sair” mas num formato mais arrojado e com a apresentação do Herman José, seria uma boa aposta para 2013.

Não concordo com o fim da telenovela brasileira da hora de almoço sobretudo quando é substituída por reposições. O conteúdo inédito tem o seu valor. Mas discordo completamente da reposição de telenovelas à uma da manhã, como está a acontecer!

E já agora se questionam um produto brasileiro também devem questionar os filmes e as séries estrangeiras. Muitas estações públicas europeias emitem no seu daytime telenovelas estrangeiras. Por exemplo, a BBC emitiu durante duas décadas a soap opera australiana “Neighbours”, e só deixou de emitir porque não quis pagar o que os produtores exigiram.

Por fim, as mudanças nos talk-shows do daytime foram mais uma vez desastrosas, não escapando nada: imagem gráfica, cenários, conteúdos e apresentação.

E a cereja no topo do bolo é o novo programa da antiga dupla das manhãs “Aqui Portugal” que se prevê ser mais uma maratona de música ‘pimba’ à semelhança do que já aconteceu com “A Festa É Nossa”.

Esta ‘nova’ RTP1 continua a revelar as faltas de criatividade e inovação das nossas televisões, quer para novas soluções de programação quer para novos formatos.

E como eu tinha dito na crónica anterior, a renovação da programação da RTP1 iria levar a estação a atingir novos mínimos históricos de audiência como podemos constatar nestes dois primeiros dias.

Por isso não fiquei surpreendido, apenas chocado com uma situação completamente evitável se tivesse havido atenção à realidade nacional na elaboração da nova programação.

Uma oportunidade perdida e provavelmente mais um prego no caixão no serviço público português.

Na próxima semana vou abordar a programação diurna das generalistas.

Fiquem em boa companhia!

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