Manuel Luís Goucha despede-se do “Praça da Alegria” com um extenso e sentido texto


Num extenso texto publicado durante o fim de semana no seu blog pessoal, Manuel Luís Goucha despediu-se do “Praça da Alegria”.

O histórico programa da RTP1 chegou ao fim na passada sexta-feira e o primeiro apresentador, agora na TVI, associou-se às despedidas.

Muitos profissionais passaram, ao longo de 19 anos, de forma interina ou mais permanente pelo matutino da RTP1. «Aquela foi a minha Praça, a da Anabela, a da Sónia, a do Jorge, a do Hélder, a da Tânia, a do João… Foi a Praça da Picolé, do Aleluia, do Guilherme, do Francisco… e de muitos mais que a ela se dedicaram, do lado de cá e de lá das câmaras», disse Manuel Luís Goucha no texto.

Embora grato ao que o “Praça da Alegria” lhe proporcionou e ao adjacente crescimento profissional, o agora rosto do “Você na TV!” relativiza: «O “Praça da Alegria” acabou. Não há programas eternos. Como não há apresentadores eternos».

Veja o texto na íntegra:

Não morreu de “morte macaca”, antes de morte anunciada, que foi quando se deixou anquilosar. Muitos dizem que o golpe fatal foi desferido com a sua mudança para Lisboa, e até que podem ter alguma razão, mas o programa há muito que estava envelhecido, tendo por isso perdido viço e competitividade. Um projecto televisivo diário tem de ter a capacidade de se saber renovar, para assim conseguir ainda surpreender o espectador quando é mais do que sabido que tudo, ou quase, está inventado em televisão. O “Praça da Alegria” acabou após 19 anos de emissões. Só pela sua longevidade merece a nossa atenção, dado ser caso único num país onde tudo se descarta, e particularmente o que é velho.

Aquela foi a minha Praça durante sete anos. Não sou de me demorar no passado, que o caminho faz-se é andando, mas lembro-me do dia em que fui chamado ao gabinete da Luisa Calado, então responsável pelos programas da RTP/Porto, para visionar um programa da manhã italiano, cujo cenário era uma praça onde tudo acontecia, desde os momentos musicais, aos de humor, passando pelas conversas sobre tudo e mais alguma coisa. O que se pretendia era fazer coisa do género e logo na temporada seguinte, que começava dali a uns dois meses, ainda estava eu e a Anabela Mota Ribeiro na condução do seu antecessor “Viva a Manhã”. Sugeri, então, o nome “Praça da Alegria”, por achá-lo sugestivo e conveniente, como que para dar o mote a tudo o que ali poderia acontecer. Há nomes que são já o que podemos ser neles. A ideia não colheu a unanimidade dos que estavam nessa reunião. “Isso é muito lisboeta!” – lembro-me de ter ouvido. Certo é que a Praça da Alegria da capital, a dois passos do Parque Mayer, era noticia bastas vezes, já que na altura era ali a sede da Federação Portuguesa de Futebol, para além do Máxime, do Hot Clube e até de uma esquadra de polícia que volta e meia dava que falar. Porém outrem terá logo atacado o que posso ter entendido como um mal disfarçado complexo de inferioridade: ” Não, também há uma praça com esse nome aqui no Porto”. E assim se chegou ao nome do programa que vingaria por quase uma vintena de anos.

Aquela foi a minha Praça, a da Anabela, a da Sónia, a do Jorge, a do Hélder, a da Tânia, a do João… Foi a Praça da Picolé, do Aleluia, do Guilherme, do Francisco… e de muitos mais que a ela se dedicaram, do lado de cá e de lá das câmaras.

Foi a Praça de quantos se sentaram à conversa, desfiando histórias e rosários, tradições, lengalengas e superstições. Foi a Praça de quantos, em casa, a sentiam sua na alegria, na emoção, no desafio e nos afectos.

Aquela foi a minha mais completa escola de televisão. Ainda hoje, após doze anos da minha saída, cumpro tudo a que então me obriguei, em disciplina, pesquisa e trabalho .Como se cada dia fosse uma estreia. Afinal não somos avaliados, diariamente , através da implacabilidade das audiências? Muitas vezes até de forma abusiva e injusta (se em três horas de emissão se perde a liderança por dez minutos, nem que sejam os do intervalo, é sabido que serão esses míseros minutos a noticia, para gáudio dos “treinadores de bancada”, que os há em barda também neste domínio, e de uns quantos pares).

O ” Praça da Alegria” terá tido muitos méritos, até o de ter estimulado um outro olhar sobre os programas da manhã. Durante anos foi um horário menorizado, era “coisa para velhos e donas de casa”, dizia-se, como se estes fossem cidadãos de segunda. Tornou-se porém num horário apetecível e exigente pela cada vez maior diversidade dos seus públicos. Será necessário lembrar que há momentos em que de manhã estão cerca de setecentas mil pessoas, a seguir apenas um dos programas?. Verdadeiro contentor de temas, nele tudo cabe, do tema social, ao tema médico, da música ao humor, do debate político ao puro disparate… E que bom que é disparatar! Daí que se exija de quem o conduz agilidade, curiosidade, habilidade, empenho… É a verdadeira prova de fogo. Tudo quanto se possa fazer para além deste tipo de formato é, permitam-me a expressão, “peanuts”. Por isso, só ser para alguns.

Dispenso formas amáveis de ser hipócrita, não alinhando no habitual coro de carpideiras que, em havendo óbito, logo se perfila para chorar a desdita. O “Praça da Alegria” acabou. Não há programas eternos. Como não há apresentadores eternos. O futuro é ali e logo se esgota quando se alcança. Por isso guardo o “Praça da Alegria” na memória, que é onde tenho tudo, e procuro com tranquilidade, honrando, reciclando e se possível aprimorando, o que ali aprendi, dilatar a minha validade. Importante é não me achar atrasado. Esse é o (meu) segredo. A minha verdade. Uma entre biliões de verdades. Logo tem a importância que tem. Apenas a que lhe dou!

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