[Raio Z] Entrevista a José Neto: “A novela veio substituir a família alargada e o círculo de conhecimentos para muita gente.”


 

Numa entrevista cheia de histórias para contar, o ator e encenador José Neto revela-se no Raio Z.
A interpretar o Detetive Morais de ‘Sol de Inverno’ o ator fala-nos do crescimento da sua personagem, avançando alguns aspetos sobre a trama, das suas raízes, do teatro e da sua participação na série ‘Destino Imortal’.

Zapping: Está atualmente no elenco adicional da novela ‘Sol de Inverno’ da SIC, contudo a sua personagem era apenas uma participação pontual. Como se justifica este crescimento?
José Neto: Só os escritores e produtores sabem de facto. Inicialmente era para entrar só em três cenas, mas acabei por entrar em mais de 90. Os escritores foram-me instalando gradualmente. Creio que o meu personagem se revelou útil para complicar o enredo e talvez tenha contribuído o meu aspeto inusitado, um autointitulado detetive meio hippie, barbudo e meio playboy. Foram esticando cada vez mais o que pediam de mim, parece que fui correspondendo bem e fui ficando. Sabe bem. Por mais que eu racionalize que o detetive continua porque dá jeito para o enredo, a continuação funciona como reconhecimento de competência, o que se traduz na sensibilidade de um ator (honesto consigo) como sabor a aplauso. Tem sido estimulante a vários níveis: nunca sei que voltas vai dar o enredo, o elenco é de grande qualidade e está ali para trabalhar, e o mesmo se pode dizer de técnicos, realizadores, assistentes, pessoal de produção e de secretaria. As relações entre todos são, pelo menos, cordiais e, em muitos casos, divertidas e amistosas.

Z: É a primeira vez que vê a sua participação ser alargada numa trama?
JN: Em telenovela é a primeira vez. Em cinema, o Luís Galvão Teles deu-me uma verdadeira prenda no ‘Dot.com’, ampliando um personagem para mim. Em teatro, a minha carreira profissional começou num musical, o ‘Rocky Horror Show’, em que eu era apenas backing singer e substituto do papel de Brad e, ao fim de uns meses, foi preciso substituir o Rocky e eu assumi o papel em três dias. Deu nas vistas.

Z: O que ainda falta saber sobre este Detetive?
JN: Está a passar o episódio 130 e poucos. Ele vai aparecer com mais e mais frequência, até se tornar presença regular a partir do 180 e tal, começando a interagir com mais personagens. O enredo leva reviravoltas surpreendentes. Entretanto, ele ganha um nome: Diamantino Morais. É perspicaz, já viu muita coisa, tem uma perspetiva algo cínica da vida e não se abre muito. Eu acho que ele vem de classe média baixa, mas tem aspirações burguesas, que é basicamente conservador, e tratou de polir o trato social. Segundo diz, identifica-se com o detetive Marlowe da autoria de Raymond Chandler, embora se vista muito melhor do que ele, ou eu. Vê-se que tem alguns princípios profissionais, mas é bastante mercenário: havendo dinheiro, trata do que for preciso sem perguntas ou julgamentos de valor… dentro de certos limites, para não se queimar. Ética de bandido fino, de certo modo. Mais à-vontade na lógica do que nos sentimentos, discretamente machista. Precisamente o que ainda lhe irá complicar a vida, bastante mais para a frente, é uma paixão e um caso que lhe fazem perder o controlo habitual. Ah, e esses arroubos sentimentais fazem-no mudar de visual – quando um cinquentão começa a querer parecer mais novo está feito! Estamos agora na fase final de gravações e aguardo os guiões com curiosidade. Como ele vai acabar ainda não sei mesmo!

Z: Ainda existem detetives na realidade?
JN: Ainda há detetives privados freelancers, sim, embora cada vez mais se faça trabalho em equipa e de gabinete, utilizando meios informáticos. E a maior parte dos trabalhos que lhes tocam são pouco inspiradores: andar a seguir os passos de maridos ou mulheres transviados, de alguém que ficou a dever dinheiro… talvez alguém que desapareceu. Aliás, o Morais faz essencialmente isso, exceto a Laura, que é uma cliente excecionalmente rica e disposta a pagar grandes subornos, deslocações a Londres, Brasil, México, etc.

Z: [SPOILER] A morte do Eduardo (Diogo Morgado) será o próximo grande trabalho da sua personagem?
JN: O portal de programas já informa com muita antecedência que Laura mata o filho. Eu, como público, não gosto de spoilers, mas parece que o público das novelas não leva a mal 🙂 A propósito, ela não o mata, é um acidente durante uma discussão. Em todo caso, como seria de esperar, a Laura pede ajuda ao Morais. Pela primeira vez, ele ajuda contrafeito e daí começam as complicações.

Z: Integrou o elenco de ‘Destino Imortal’ na TVI. Teve pena de não interpretar também um dos vampiros?
JN: Confesso que sim! Sou um teatreiro, logo agrada-me esse tipo de papéis. Tenho bom treino em drama clássico, mímica, dança e algumas técnicas de combate, e sabe bem pôr isso em prática. Gosto de fantasia e de uma boa transpiração.

Z: Seria possível, em Portugal, fazer uma novela que dependesse de tantos efeitos especiais?
JN: A rodagem de uma longa-metragem de cinema pode levar meses e depois outro tanto em pós-produção. Ao ritmo de novela fazia-se tudo em 4 a 5 dias! As novelas são essencialmente um produto de consumo rápido. Só aquelas que são destinadas a horário nobre, com potencial de venda internacional, como esta, têm orçamentos que comportam cenas com alguns efeitos especiais. Mesmo na Globo brasileira, com mercado mundial, os produtores têm de estar sempre de olho na relação custos/benefícios. Em Portugal muito mais. Uma cena de grande drama emocional, com muita gritaria ou lágrimas, pode render bons minutos de ecrã e prender audiências sem grandes custos ou complicações técnicas. Já os efeitos especiais exigem muito tempo, tudo se faz com muita preparação, para não haver acidentes, e depois é tudo passo a passo de vários ângulos. Implicam materiais e maquinaria especiais, treinadores de combate, especialistas em explosões, duplos, aulas especiais para os atores, nas quais recebem sem estarem a gravar… Tudo isso é moroso e muito caro. Por exemplo, a tal cena da morte do Eduardo, que dura poucos minutos no ecrã, levou um dia inteiro a gravar. E nem se compara em complexidade técnica com algumas das cenas de voo e combate com espadas que se viram em ‘Destino Imortal’. As mini-séries são um meio intermédio entre cinema e novela: pode haver mais elaboração, porque também há mais tempo, e mais possibilidades de recuperar custos através de vendas para fora e com reposições.

Z: Para quando uma participação no elenco fixo de uma novela? É um projeto a curto prazo?
JN: Estive no elenco fixo de uma, ‘Sonhos Traídos’, já há uns anos, depois de ter protagonizado um telefilme da SIC, ‘Um Homem não é um Gato’. A visibilidade ajuda aos convites e este ano vou ter alguma. ‘Sol de Inverno’ deve estar no ar até Agosto e logo em Setembro estreia-se ‘Os Maias’ de João Botelho, em que tenho algum destaque. Agora em Março vou participar noutro do Galvão Teles, ‘Gelo’, que talvez saia no final do ano. Isto para além de várias curtas-metragens. De tudo isto poderão surgir convites. Quanto a novelas, se depois desta me quiserem convidar para outra, em elenco fixo ou adicional, estou disponível.

Z: O género novela está a ficar gasto?
JN: Não creio. Goste-se ou não, as novelas vão perdurar. Há certas fórmulas dentro do género que vão ficando muito vistas e acabam por ser abandonadas, como o enredo da gémea boa e da gémea má, ou a de personagens puramente maus ou bons, mas acho que o género em si não se gastará desde que consiga continuar a renovar-se. E consegue. Os realizadores em Portugal, que antes tinham apenas escola de cinema, já têm agora mais experiência na linguagem específica da televisão. Também há nitidamente maior aposta na qualidade do produto em geral e particularmente na qualidade de representação. Aproveito aqui para, entre um elenco geralmente muito bom, destacar a Maria João Luís pela complexidade que trouxe ao seu personagem e pela extraordinária capacidade de trabalho. Quem mais me surpreendeu foi a Luciana Abreu – tiro-lhe o chapéu. Voltando à questão, o público já não se queixa de que os atores portugueses não são “naturais” como os brasileiros – e isso deve-se não só aos atores (que também já compreendem o que resulta no pequeno ecrã), mas também a melhores enquadramentos e montagem, a enredos mais atentos a problemas do quotidiano real, com mais latitude para abordar questões polémicas, a um gradual entendimento de aspetos que ajudam aos atores a dar o seu melhor, etc. Nem tudo são rosas, mas houve claro progresso. Teve de haver porque a maior exposição ao género resultou num público mais exigente e revelou-se que a qualidade se traduz em shares e fidelização. Além destes aspectos, há factores socioculturais que se mantêm. Por exemplo, temas como as desgraças dos ricos e poderosos ou como a ascensão social de variantes da gata borralheira são mais do que fórmulas estafadas: são arquétipos duradouros. Outro factor: a novela veio substituir a família alargada e o círculo de conhecimentos para muita gente. Ainda que haja hoje menor confusão entre os atores e os papéis que representam, os personagens tornam-se familiares ao longo dos meses, são discutidos, são motivo de conversas, instalam-se como referências para comportamentos e até para a expressão de sentimentos. As audiências atravessam todas as classes sociais, das pessoas mais pobres ou incultas às mais ricas ou mais instruídas. E, contrariamente ao que se possa pensar, os reality shows são quanto muito produtos complementares, mas não fazem concorrência direta às novelas. As pessoas precisam de histórias e de personagens com “sumo”, por isso as novelas não precisam de correr atrás dos reality shows. Estes é que as imitam. Quanto ao público mais jovem, descrito como preso à Web e desinteressado nas novelas, atrevo-me a dizer que, tal como acontece com muitos adultos, vários perfis e “amizades” do Facebook tomam as novelas como modelo também.

Z: Está neste momento a preparar uma nova peça, o que pode adiantar?
JN: De facto são duas em preparação. Uma que estou a escrever para quatro mulheres, chamada ‘Quarteto’, que terminarei em breve e conto encenar ainda este ano. Outra, do Armando Nascimento Rosa, autor que já representei, e da qual já te falei – só posso confirmar e divulgar pormenores depois de 10 de Março, porque ainda há aspetos a finalizar, mas brevemente, como prometi, dou-te a notícia e primeira entrevista.

Z: Perguntas Rápidas:
Maior Vício: Ler, dormir de menos, dançar, tocar guitarra.
Livro/Filme/Música/Série Favoritos: Ufff, tenho gostos muito ecléticos:
– Livros: tudo de Ray Bradbury, Pessoa, Oscar Wilde, Shakespeare, Cervantes;
– Filmes: ‘Morte em Veneza’, ‘2001 Odisseia no Espaço’, ‘Cor Púrpura’, ‘Café Baghdad’, ‘Cabaret’, ‘Venus’ (com Peter O’Toole);
– Música: Egberto Gismonti, Suites para Cello de Bach, Zeca Afonso, Beethoven, Chopin, Peter Gabriel, Prince, Jacques Brel, Cesária Évora, Caetano e Buarque, chorinhos, ragtime, música coral, blues…
– Séries: ‘Six Feet Under’, ‘Archie Bunker’, ‘Brideshead Revisited’, ‘Allo Allo’…
Na TV não dispenso: Documentários.
A pessoa que mais admiro é: ufff, tantas. Ghandi, a minha mãe pela coragem, Gago Coutinho (não pela viagem aérea, por tudo o mais), Frederik deKlerk, D. João IV, Leonardo da Vinci, Nureyev…
Não vivo sem: sol, duches quentes, livros e material de escrita, longas conversas, teatro.
Não saio de casa sem: canivete suíço e um lenço.
Um dia corre bem quando: não houve stress, tive uma boa ideia, fiz alguém sorrir.

Z: Pergunta Final: A sua vida dava uma novela? Porquê?
JN: Não dava de todo. Quase cada episódio de uma novela teria matéria para primeira página de jornal. Não é o meu caso. É um tipo de vida de arcos longos e lentos, desinteressantes em novela. Mesmo aventuras como viajar de bicicleta, ou à boleia pelo interior de Moçambique (com 15 anos), ou atravessar o Atlântico à vela com outros três malucos são aventuras lentas, bastante mentais, com alguma sujidade à mistura, sem glamour visual continuado, mais indicadas para tratamento em livro ou documentário.

Entrevista de Ricardo Neto
Revisão de Inês Silva

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