[Raio Z] Entrevista a Isabel Medina: “Antes das privadas (…) fizeram-se muitas e boas novelas que retratavam a realidade.”


Começou a sua carreira no teatro e chegou mesmo a ser responsável pela ficção da RTP. Isabel Medina integrou projetos de sucesso como ‘Louco Amor’, ‘Meu Amor’, ‘Morangos com Açúcar’, ‘A Outra’ ou ‘A Lenda da Graça’.
Atriz e encenadora, Isabel é licenciada em Filosofia Germânica e está hoje em Raio Z!

Zapping: Fez parte do elenco de ‘Mundo ao Contrário’, uma novela com uma linguagem diferente do que vimos até agora na televisão. Sente que faz falta realismo nas novelas e séries portuguesas?
Isabel Medina: A linguagem de ‘Mundo ao Contrário’ era a verdadeira linguagem das novelas. Antes das privadas, e para quem viveu esse tempo, fizeram-se muitas e boas novelas que retratavam a realidade, mantendo o seu pendor novelístico. Isso fazia com que o público se identificasse, não se alienando do quotidiano, divertindo-se, e ao mesmo tempo, podendo refletir sobre a sua própria vida. Entretanto, a sociedade mudou. Começaram os reality shows, que de realidade não têm nada, mas que potenciam tudo o que o ser humano tem de pior: o voyeurismo, a cusquice, a anti-cultura. E as novelas tiveram de acompanhar a anestesia geral a que somos submetidos, sob pena de não terem audiências. Em tempos de totalitarismo, como os que vivemos, os poderes vão minando com antecedência a sociedade, distraindo-a e amolecendo-a de forma a manipularem-na mais tarde, sem revoltas nem protestos. Um novelão com situações fora da realidade é muito melhor aceite. Nunca ouviram as pessoas comentar: “Para desgraça já chega a minha vida”? Ninguém quer ouvir falar de desemprego e miséria. Estamos todos de cabeça enfiada na areia, como bons e obedientes cidadãos. Vivemos num MUNDO AO CONTRÁRIO, mas não o queremos ver.

Z: A Adelaide era uma mulher que vivia de olhos fechados para as más ações do filho, D.T (Nuno Gil). Como foi dar vida a esta mulher?
IM: Foi bom. Foi muito duro. Foi maravilhoso. O amor de mãe é um amor incondicional. E acredito que, mesmo sendo um filho adoptado, o amor seja igual. Filho é quem criamos. Foi nesse sentido que trabalhei. E, perante o dilema de escolher entre os dois filhos, é óbvio que ela teria de fazer justiça. Foi uma brilhante ideia dos autores: o derradeiro sacrifício de uma mãe perante a inevitabilidade de um crime. Lembro-me que quando acabei a cena, estava exausta e não queria falar com ninguém. Cheguei a casa e chorei. Por todas as mães, pelo mundo, pela desigualdade, pelas injustiças… E depois senti-me melhor… Um bom texto pode ser redentor…

Z: Sente que ainda hoje há casos de polícia que são escondidos pela família, como acontecia na trama?
IM: Esta entrevista leva-nos tão longe… Mas vou tentar ser breve. A desigualdade social, este abismo que criaram entre pobres e ricos, leva-me a perguntar: que famílias? As famílias que lutam dia a dia por um pedaço de pão? Que são esquecidas, desprotegidas? Um dos seus membros entra na vida de crime. É a família que o vai condenar? E condená-lo porquê? Passou fome, foi maltratado, não tem direito à saúde, à educação, a ter uma infância… A única coisa que tem é a família, quando ela não se desagrega.
Imaginemos o mesmo numa família rica, onde os casos são muitos. Alguém sabe deles? Roubam, trocam influências, abusam do poder, violam todas as leis da vida… Mas têm dinheiro para abafar, conhecimentos a que apelar. E ficam impunes.

Z: A novela foi atirada para o late night e viu o número de episódios reduzido. Enquanto atriz, como viu esta situação?
IM: Enquanto atriz, com muita pena. Sabia o que ia acontecer, a trama era riquíssima. Foi amputada, os vários “nós” não tiveram tempo de ser bem “desatados”… Enquanto cidadã, também fiquei triste. Estava, pensava eu, a ter alguma utilidade social, a ajudar a reflectir sobre o mundo em que vivemos, mas durou pouco tempo… O horário, esse nunca me afligiu. Era abordada na rua por muita gente. Se não podiam ver, gravavam. E o público era fiel e adorava a novela.

Z: Antes de integrar o elenco de ‘Mundo ao Contrário’ fez parte de ‘Louco Amor’. A meio da novela a Custódia, sua personagem, foi afastada da trama, o que foi envolto em polémica. Ficou de facto triste, como escreveu a imprensa na altura?
IM: Ficamos sempre tristes quando saímos de uma novela onde temos uma personagem que nos dá gozo fazer, como era o caso da Custódia. Divertia-me imenso com ela. Mas também sei, como autora e como responsável pela ficção portuguesa na RTP durante bastante tempo, que, em todas as novelas, há necessidade de refrescar o elenco e dar uma volta à história. A polémica foi criada pelas revistas, não por mim. Compreendi perfeitamente.

Z: A Custódia era uma das grandes vilãs da história. Dar vida a uma vilã é sempre um desafio maior?
IM: É divertido. Encontrar dentro de nós a maldade e trazê-la cá para fora… E a Custódia era uma mulher acima de tudo frustrada, sexual e socialmente. Adorei a mudança dela. Da grande austeridade para a maior frivolidade. Gostei.

Z: ‘Louco Amor’ tinha vários atores de renome como Ruy de Carvalho, Simone de Oliveira, Helena Isabel, Luís Esparteiro, entre outros. Um bom elenco faz um bom texto?
IM: Nunca! Um bom texto deve ser servido por um bom elenco. Esse é o segredo. Quando o texto não é bom, um bom leque de atores pode “salvá-lo”, mas não fazer dele uma boa novela!

Z: Além de atriz é diretora de atores. Qual das duas atividades lhe dá mais gozo?
IM: Ser atriz é o meu primeiro desejo. No entanto, como encenadora, função de que muito gosto, dei-me conta de que gostava de dirigir atores. Por isso, quando surgiu o convite para a direcção de actores de uma novela, aceitei com prazer. E repeti porque gostei e senti que era útil para os meus colegas. Além disso, é uma boa aprendizagem e uma forma de descansar a imagem durante uns tempos.

Z: Neste momento, tanto a TVI como a SIC e a RTP estão a apostar bastante na ficção. Sente que há agora uma maior liberdade de escolha para os atores?
IM: Não existe assim tanta ficção que possa englobar todo o mercado de atores. Por isso, não podemos ainda falar em liberdade de escolha. No Teatro é mais fácil. E mais desafiante. Os textos de teatro permitem normalmente a construção de grandes personagens.

Z: Perguntas Rápidas:
Maior Vício… Chocolates;
Livro/Filme/Música/Série Favoritos… Livro: Os poemas de Constantin Kavafis, Filme: “Providence” de Alain Resnais, Música: Vivaldi, Série :“Homeland”;
Na TV não dispenso… Alguns canais por cabo;
A pessoa que mais admiro é… O meu filho e o meu marido;
Não vivo sem… Respirar;
Não saio de casa sem… Os óculos de ver ao pé;
Um dia corre bem quando… Não “stresso”.

Z: Pergunta Final:
A sua vida dava uma novela? Porquê?
IM: A minha vida não dava uma novela. É só minha e dos que amo.

Entrevista de Ricardo Neto
Revisão de Inês Santos

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