[Raio Z] Entrevista a Paulo Oom : “Há quem aceite trabalhar por valores irrisórios que, a médio prazo, irão dar cabo da produção nacional.”


Nascido a 19 de Junho de 1966, Paulo Oom preenche o imaginário de muitas crianças. A sua voz foi “emprestada” a personagens com Bugs Bunny, Gato das Botas, Scuttle ou Pinóquio.

No ar na novela “Doce Fugitiva”, entrevistamos hoje Paulo Oom que nos fala da sua vida profissional, em mais um Raio Z!

Zapping: Esteve no ar, recentemente, em duas repetições: “Doce Fugitiva” e “A Outra”. Acha que as repetições gastam a imagem dos atores?
Paulo Oom: No meu caso específico, penso que não. Não apareço assim tanto na televisão para que uma repetição seja suficiente para desgastar a minha imagem. Talvez faça uma ressalva em relação ao “Não Há Duas Sem Três”, que passa ininterruptamente e desde sempre na RTP Memória. No entanto, é uma série que foi feita há tanto tempo que o Paulo Oom que as pessoas vêm é quase como se fosse outro Paulo Oom, e ainda por cima quem vê gosta. Acho mais grave os atores que entram em todas as telenovelas, umas a seguir às outras, sem tempo para respirar, fazendo muitas vezes papeis parecidos e chegando ao limite de ter duas novelas no ar ao mesmo tempo (que confusão para o público).

Z: O que recorda do seu Américo?
PO: Guardo muito boas recordações do Américo, mas é preciso dizer que o Américo foi fruto de uma série de condições que nem sempre acontecem. Toda a equipa criativa (desde a autoria até à realização) foi muito disponível em relação a todas as ideias que eu trazia para as cenas. Qualquer ator deve olhar para a sua personagem como se fosse a mais importante da novela. Mais importante não quer dizer protagonista, cada personagem tem a sua posição na trama e isso não precisa de ser alterado, a minha personagem é a mais importante para mim, tenho de a conhecer bem, tenho de saber o que os outros dizem dela e, só assim, posso fundamentar todas as propostas que apresento ao mesmo tempo que garanto que, no fim, tudo mantém coerência. Ao mesmo tempo, cada cena pode valer por si e ter uma “história” ou, no mínimo, acontecer alguma coisa (mesmo aquelas mais chatas que só servem para passar informação) e isso dá trabalho e implica preparação, mas é possível e não é assim tão difícil… Mas lá está, a boa vontade do ator e a sua criatividade só poderão passar com uma equipa igualmente interessante e interessada. O Américo não pertencia sequer ao elenco principal e foi graças a todas estas vontades que o Américo pode crescer até ser aquela personagem que agradou a tanta gente.

Z: Em TV já o vimos fazer um pouco de tudo, da comédia ao drama, passando por vilões e bonzinhos. Teme ficar catalogado com algum registo?
PO: Se me for permitido continuar a trabalhar em diferentes registos, dificilmente poderei ficar catalogado com algum deles! Quanto muito, poderão catalogar-me como o ator que faz dobragens, que é o que tenho feito mais nos últimos tempos… Mas, tal como referi acima, não apareço o suficiente para me preocupar com essa situação!
Para contrariar estas afirmações, neste momento, até estão a passar duas telenovelas em simultâneo em que entro, mas as personagens são quase os antípodas uma da outra (o Américo de “A Doce Fugitiva” é uma pessoa feliz e boa onda, o Jorge de “A Outra” é um homem sem onda que não sabe ser feliz)… Gostava que me catalogassem como “um bom actor” (assim, com “c” e tudo).

Z: Em tempos de crise ainda há liberdade para se escolher se aceita ou não um papel?
PO: Depende de quem estamos a falar, há quem possa e há quem não possa! A situação é mais grave do que isso, há quem aceite trabalhar por valores irrisórios que, a médio prazo, irão dar cabo da produção nacional (escuso-me agora de elaborar mais sobre este assunto), no entanto algumas figuras de destaque (ou a quem foi dado destaque) do nosso meio artístico deviam (porque podem) ser mais exigentes com os trabalhos que aceitam. Quanto a mim (que não posso deixar de trabalhar) acontece-me muitas vezes recusar um trabalho, que até poderia ser mais bem pago, mas que iria colidir com outro com o qual já me comprometi. É difícil, e às vezes arrependemo-nos, mas a vida é feita de escolhas – entre o desafio, a carga horária e o cachet – temos de tomar as nossas opções e viver com elas. Para mim, o mais importante é dar o meu melhor em cada trabalho que faço, quem gosta de mim e quem me contrata sabe que pode contar com a minha total dedicação e profissionalismo e isso implica não poder aceitar todos os trabalhos que me oferecem.

Z: Tem feito várias participações em projetos da SP Televisão. Sente que esta produtora é a sua “segunda casa”?
PO: Não sinto que tenha “casas”, nenhuma produtora me tratou especialmente bem para a ter como preferida, nenhuma me desprezou o suficiente para dizer que não voltaria a trabalhar lá. Trabalho com quem quiser utilizar aquilo que tenho para dar, dou preferência à proposta mais interessante, respeito o trabalho bem feito e exijo que respeitem o meu.

Z: Integrou o elenco da série “Lua Vermelha”. Como foi dar vida ao Raul? Exigiu algum trabalho de composição?
PO: O Raúl foi a hipótese de entrar no mundo da fantasia, sempre gostei de vampiros, e revi os filmes do Blade com muita atenção 🙂 No entanto, as aspirações que temos para uma personagem e o que nos é dado para representar nem sempre é coincidente, seja por opção da autoria, seja por falta de meios ou mesmo falta de visão. Diverti-me muito a fazer o Raúl, gostava que ele tivesse sido mais ameaçador, gostava que tivesse morrido com honra.

Z: O universo do fantástico não é muito explorado na ficção em Portugal. Como foi fazer parte de um projeto pioneiro no nosso país?
PO: Tenho pena que este universo de fantasia não seja mais explorado, tenho pena que não se faça ficção científica, tenho pena que não se faça mais ficção de terror, mas, no fundo, tudo se resume ao que é imprescindível fazer mais! Mais e mais e mais… Mais e melhor! Nunca senti o peso ou a honra de estar num projecto pioneiro, era o trabalho que estava a fazer no momento e ao qual me dediquei a 100%, como em qualquer outro. Penso é que foi maltratado pela estação que o emitiu, penso que foi esticado demais, que mudou de horário muitas vezes, e, no entanto, acho que poderia ter uma 2ª temporada.

Z: A sua voz é associada a várias personagens de animação, tendo sido reconhecido pela Warner Bros como a voz oficial do Bugs Bunny. Como se processa todo o processo para a dobragem de um desenho animado?
PO: A dobragem é uma forma de representação muito específica e especial, nem todos os atores são capazes de fazer uma boa dobragem! Na dobragem há uma componente “matemática” (chamemos-lhe assim) muito grande – as frases que dizemos têm de coincidir rigorosamente com o tempo das falas originais. Há também uma importante componente de humildade – o desenho da personagem já está feito, não somos criativos nesse campo, temos de nos encaixar na criação de outra pessoa; ao mesmo tempo não podemos descurar a representação, as intenções e as emoções têm de estar todas lá. Ou seja, respeitando as opções do ator original, colando-nos aos seus tempos, falando numa língua diferente e com as necessárias adaptações a nossa interpretação tem de ser natural e temos de fazer com que a nossa voz se torne credível numa cara que não é a nossa.
Para filmes e séries importantes são feitos castings (é impossível por questões logísticas e económicas fazer castings abertos a toda a gente), três ou quatro vozes são enviadas para o cliente que tem a decisão final (aqui para nós, que ninguém nos ouve, neste momento, as distribuidoras têm vindo a ter um peso crescente na escolha de atores, dando primazia, na minha opinião, a fatores comerciais sobre fatores artísticos). Estando escolhidos os atores passa-se para a fase de gravação (obviamente, entretanto foi feita uma tradução do texto original), durante a gravação ainda são feitos ajustes ao texto, algumas coisas só são percebidas na prática e no momento. Opções de alteração de texto podem ser feitas tendo em conta a interpretação do ator, o ritmo da cena e palavras ou construções frásicas que defendam os movimentos labiais do filme que está a ser dobrado. As falas são gravadas uma a uma, e se for necessário subdivididas, vê-se uma ou duas vezes a frase a gravar, fazem-se as adaptações necessárias, faz-se um ensaio, grava-se e verifica-se, se não estiver a nosso gosto (sendo que “nosso” é o director) repete-se. Se for necessário faz-se nova adaptação da frase, volta-se a gravar, verifica-se outra vez e repete-se até ficar perfeito – perfeito é: sincronia, intenção, interpretação, colocação de voz, projecção – tudo isto sem esquecer que a interpretação de qualquer ator terá de ser coerente e dentro de uma unidade com a interpretação de muitos outros atores que irão gravar em dias diferentes.
Como conclusão: dobrar não é fazer vozes, e dobrar bem exige atores com capacidades específicas.

Z: Um dos seus trabalhos na área das dobragens foi a personagem Gato das Botas da trilogia Shrek. Como recebeu este convite? E como foi dar vida a um personagem carregado de características?
PO: Eu dirigi o primeiro filme do Shrek. Estava tudo encarreirado para dirigir o segundo, mas um projecto teatral, em que estava envolvido, e que exigia que eu me deslocasse durante alguns meses pelo país, colidiu com as datas de gravação e acabei por não o poder fazer. No entanto, todo o processo de casting foi ainda feito por mim. Quando os filmes estão para chegar a informação que temos é muito limitada, os castings são feitos com pedaços soltos do filme, com imagens inacabadas, por vezes até em cima de desenhos sem animação ou mesmo ouvindo apenas uma voz… Uma das personagens do segundo filme do Shrek era o Gato das Botas, que era feito originalmente pelo Antonio Banderas e tinha sotaque espanhol. Como habitualmente fazia, seleccionei três ou quatro atores para o casting, e, pensando que seria um papel muito secundário, propus também a minha voz no casting (não gosto de fazer personagens importantes nos filmes que dirijo), lembro-me que todos os castings eram muito bons, mas na minha opinião, o meu sotaque espanhol era o melhor. Por isso ou por qualquer outra razão, o cliente escolheu a minha voz para o papel. Como referi antes, acabei por não dirigir o filme, portanto a minha ligação ao filme ficou-se por esses castings (e já não me lembro se cheguei a dirigir um ou dois trailers), isto até ao dia em que me informaram que tinha sido escolhido e me marcaram uma data para a gravação. Só no dia da gravação é que comecei a perceber a potencialidade da personagem. Por motivos vários, que não interessa aqui referir, não voltei a dirigir nenhum dos seguintes filmes do Shrek, mas o Gato lá estava e com ele, a minha voz, tanto no terceiro, como no quarto, quando apareceu o filme do Gato da Botas, eu já o conhecia tão bem que a dobragem fluiu com uma facilidade que até a mim surpreendeu. Quando o filme saiu em DVD optaram por não dobrar a curta-metragem “Los Tres Diablos” que vinha como extra, nunca me justificaram porque é que tomaram essa decisão (embora não acredite que pudesse ser por motivos económicos, seria muito barato fazê-lo), durante uns tempos falou-se na possibilidade de um Gato das Botas 2, depois os rumores desapareceram! Talvez nunca mais dobre o Gato das Botas…

Z: Para já, sabe quando o poderemos voltar a ver na televisão?
PO: Neste momento não tenho nenhuma proposta concreta, mas podem sempre espreitar a RTP Memória e voltar a ver o “Não Há Duas Sem Três”.

Z: Perguntas Rápidas:
Maior Vício… música
Livro/Filme/Música/Série Favoritos… Uma Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson / Blade Runner, Ridley Scott / Vangelis e Trevor Horn / Game of Thrones
Na TV não dispenso… o DVD
A pessoa que mais admiro é… a minha mulher
Não vivo sem… música
Não saio de casa sem… o meu leitor de MP3
Um dia corre bem quando… chega ao fim e o meu sorriso não desapareceu

Z: Pergunta Final:
A sua vida dava uma novela? Porquê?
PO: A minha vida não dava uma telenovela! Mas, como em tudo, com uma boa equipa de argumentistas, seria possível realçar algumas situações, dramatizar alguns momentos, inventar uma ou duas personagens, tornar outras três mais interessantes, inventar aqui e ali, criar um dois conflitos, resolvê-los de forma surpreendente e teríamos, garantidamente, um bom programa de televisão 😉

Entrevista de Ricardo Neto
Revisão de Margarida Costa

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