Rui Neto: «Há uma maior tolerância e habituação das pessoas a coisas que há uns anos não havia»


Atualmente a dar vida a Nuno em ‘Sol de Inverno’, Rui Neto conta já com um vasto currículo na televisão portuguesa.

O ator já trabalhou para os três canais em formatos como “Queridas Feras”, “Sinais de Vida”, “Resistirei”, “Sedução” ou “Floribella”.

Num dos pontos altos e mais mediáticos da sua carreira, Rui dá vida a um homossexual que vive com o companheiro, personagem de Ângelo Rodrigues. O casal adota uma menina, sendo o espelho a um dos novos conceitos de família que começa a surgir no seio da realidade portuguesa.

Numa entrevista sem tabus, Rui Neto conta como é interpretar um homossexual, dos preconceitos da sociedade, da sua relação com a SP Televisão e do sucesso da SIC.

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Zapping: O Nuno de “Sol de Inverno” é o terceiro homossexual que interpreta em televisão, o que diferencia estas personagens?
Rui Neto:
 Bom… É um facto, não o posso negar. Não gosto muito de sublinhar isso, porque não faço disso bandeira, mas também não me preocupo em esconder. Confesso que até me esqueço. Primeiro, porque entre cada uma das personagens passou imenso tempo. Depois, porque uma das novelas foi retirada ar e foi só transmitida na SIC internacional [fala de “Resistirei”], por isso não chegou a ter impacto junto do público – e por acaso já nessa novela havia beijos e cenas de cama entre a minha personagem e a do Jorge Corrula. Esse facto deixa-me sempre perplexo quando oiço anunciar que agora é que se está, pela primeira vez, a ser arrojado com esse tipo de cenas gay. Mas pronto, é natural que não haja grande memória desse trabalho junto do público e dos media. Numa outra novela [“Sedução”] fiz uma personagem mais ligada ao núcleo cómico. Como tal, foi um trabalho de composição e não penso nele como ‘um homossexual’ porque essa carga não existia. Era uma ‘bichinha cabeleireira’, uma personagem divertida que me deu muito gozo fazer, em que a homossexualidade não era de todo a preocupação na construção da personagem – estava para lá disso, era uma espécie de mini-diva. Finalmente, chegámos a “Sol de Inverno”. Aqui sim, estamos a falar de uma personagem que, não só vive uma relação homossexual, como pretende constituir família e adoptar uma criança. Também neste caso, confesso que a sexualidade passa um pouco ao lado, na medida que a própria novela não sublinha essa carga e pretende dar espaço a um lado emocional e familiar das personagens. São de facto 3 personagens homossexuais, mas a forma como construo o meu trabalho não me faz pensar nelas dessa forma. O mesmo se passa quando interpreto personagens heterossexuais… Ninguém me pergunta: “já fez 5 personagens heterossexuais, o que diferencia estas personagens?”.

Z: Acha que esta é uma realidade que ainda precisa de ser explorada?
RN:
 A realidade é aquela que os autores quiserem explorar. As mesmas histórias podem ser contadas, sendo as personagens gays ou não, porque assim é a vida. A vida é tão ampla de alegrias, dramas e aventuras num caso ou noutro. O ponto de vista que se escolhe para contar essa história é que muda. Podes ter histórias cuja opção sexual não tem a mínima importância e nem nunca é referenciada. Podes ter o oposto. Não acho que essa realidade precise de ser explorada, acho é que precisa ser normalizada. Não gosto de sentir “olha lá vem mais uma cena dos gays da novela”. Acho que é interessante ter personagens gays, mas como espectador nem penso muito nisso, porque na história isso é secundário. Apesar de receber algumas críticas que acham as cenas do Nuno e Simão (“Sol de Inverno”) sem sal, em termos de química sexual, eu pessoalmente acho que, neste contexto, não poderia ser de outra forma. No entanto, apesar de não saber se a novela é o melhor tipo de produto para experimentar estas coisas, acho que se a ideia é mostrar dois gays enrolados, então não se pode ser tímido, nem ao nível de actores, nem de realização, escrita, nem das estações de televisão. Acho que há obviamente espaço para tudo, sobretudo para contar boas histórias.

Z: A população portuguesa é preconceituosa?
RN:
 Não sei. Acho que sim. Mas acho que somos muito permeáveis às modas e influências. Há uma maior tolerância e habituação das pessoas a coisas que há uns anos não havia. Podemos ser muito púdicos quando somos nós, portugueses, a fazer cenas de intimidade sexual entre homens ou mulheres, mas depois dois em cada três filmes e séries que passam na televisão têm isso e muito mais. Sem falar dos videoclips, séries na cabo e outras coisas, que nos fazem parecer meninos de coro quando se fala em arrojo na ficção portuguesa. As pessoas consomem isso e integram isso com cada vez mais normalidade. Acho que, se olharmos à nossa volta, muitas das coisas que consumimos no nosso dia-a-dia têm como chamariz essa liberdade sexual, de sermos o que quisermos ser. É a partir daqui que as coisas começam a mudar.

Z: Que feedback tem recebido sobre esta personagem?
RN:
 Um bom feedback. As pessoas que me abordam gostam do meu trabalho, gostam da forma como a história se está a desenrolar. Algumas simpatizam porque acham o casal querido, outras acham de uma grande importância o trabalho que se está a fazer. Há outras que gostariam de ver mais cenas arrojadas entre os personagens, mas como já disse, acho que isso não cabe na história desta novela. E muitas se metem comigo por causa da florista: “Está mau o negócio com esta crise, ainda para mais agora com a adopção da miúda!”

Z: Sente que a SIC pode ser a nova rainha da ficção portuguesa?
RN:
 Acho que cada canal é rei no seu reino. E acho óptimo que disputem território, porque isso faz mexer o audiovisual em Portugal. Faz-nos ser melhores e querer ser melhor. E, obviamente, abre-se mais oportunidade para os atores se os canais continuarem a apostar na ficção.

Z: A RTP2 está a transmitir novamente a série “Sinais de Vida”, como foi fazer esta série?
RN:
 Foi verdadeiramente muito bom, mas muito bom mesmo. Já não trabalhava há algum tempo e foi uma aposta da SP, num papel muito desafiante. Gosto de personagens onde possa encontrar um ponto de vista social que comunique com a nossa realidade. A minha personagem em “Sinais de Vida” era um informático que ficava no desemprego. Acabava quase sem-abrigo, a dormir no carro, com a mulher a pedir o divórcio e atolado em dívidas. E depois a necessidade de mudar de vida com tudo o que isso implica. Passava de patrão do próprio negócio a auxiliar de acção médica, a ter que reavaliar a sua forma de ver a vida e os outros. Foi um projecto importante no tempo certo.

Z: Fazem falta mais séries na televisão portuguesa?
RN:
 Creio que já ouvi dizer que uma série não é rentável… Mas eu acho que era importante haver mais, com um formato por seasons, como noutros países. Isso eleva a qualidade, promove a rotatividade de actores e fazem-se coisas mais entusiasmantes, por causa da especificidade que possam ter e pelo cuidado com que geralmente são feitas. Acredito que isso tem um custo e que requer um investimento maior…

Z: Qual é a preparação necessária para se abordar a realidade de um hospital como na série?
RN:
 No meu caso nenhuma, porque o personagem não tinha nenhuma especialidade clínica em que tivesse que mostrar competências, até pelo contrário. Acho que a maior preparação é para os autores e realizadores, que têm que ter a noção que competem directamente com a memória que o espectador possa ter de séries como “Anatomia de Grey”, “Clínica Privada”, “Serviço de Urgência” e tantas outras. No meu caso, era saber ter algum desembaraço a fazer camas e limpar o chão.

Z: Nos últimos tempos tem colaborado bastante com a SP Televisão. É diferente trabalhar com esta produtora?
RN:
 São as pessoas que fazem os sítios. Posso dizer que estou grato à SP pela confiança e aposta que fizeram em mim. Gosto muito das equipas com as quais trabalhei e espero que tenham ficado satisfeitos com o meu trabalho. E obviamente gostaria de continuar a integrar futuros projectos, pela qualidade e profissionalismo que lhes reconheço. Sobretudo, desenvolvi laços profissionais que me fazer sentir seguro no trabalho, e isso é muito importante.

Z: Depois de “Sol de Inverno” já sabe o que se segue?
RN:
 Em televisão, para já, não sei de mais nada. Tenho dedicado o meu tempo a projectos de teatro que tenho para os próximos meses:
“40 – Abril” no Teatro Rápido, encenação Rui Neto, com Joana Figueira, texto de Lourenço Henriques;
“O Aldrabão” – Maio no TNDMII, como actor, encenação de João Mota;
“Worms” – Maio, no Teatro da Trindade, texto e encenação Rui Neto, com São José Correia

Z: Que personagem ainda lhe falta interpretar?
RN:
 Muitas. Tenho cabelos brancos mais ainda sou novo e acho que tenho muito caminho ainda pela frente. Gostava de um vilão. Nunca fiz nada parecido em televisão.

Rapidinhas
Maior Vício… Chocolate
Livro/Filme/Música/Série Favoritos… Livro: Os Maias; Filme: Ligações Perigosas; Série: American Horror Story; Game of Thrones;
Na TV não dispenso… a box de gravação
A pessoa que mais admiro é… o meu avô
Não vivo sem… telemóvel e sem inventar projectos para fazer
Não saio de casa sem… tomar banho e passear o cão
Um dia corre bem quando… acabo cansado e o trabalho correu bem

Z: Pergunta Final: A sua vida dava uma novela porquê?
RN:
 Porque há ainda muitos episódios em aberto.

Entrevista: Ricardo Neto

Revisão: Margarida Costa

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